9 de dez de 2016

Horror: Rio

Um dia turbulento, estava pensativa. Mais que o normal, embora não fosse normal. Nem ousava querer saber o que era normal.

Algo apertava meu coração mas eu estava disposta a passar por tudo aquilo. Do lado de quem mais amo. Eram meus combustíveis para enfrentar tão delicada situação. Nada estava pronto, todos da cidade foram pegos de surpresa. O sertão iria se tornar mar, e o mar estava se tornando sertão, finalmente a vingança da natureza. Mesmo eu não tendo feito grandes danos à natureza me sentia culpada.

Estava o tempo todo ao lado do telefone conversando com o homem que eu tinha decidido partilhar minha vida, e ele preocupado como toda a rota que faríamos. Não tinha contado para a minha familia como eu iria para o abrigo, mas notei uma movimentação estranha na sala.

Não eramos de receber visitas mas a irmã gêmea da minha mãe apareceu com o ex marido dando uma estratégia para fugirmos do furor das águas. Ao ouvir que podíamos fazer parte de uma seleta lista de pessoas, logo questionei o que aconteceria com a maior parte da população diante de tal tragédia. Ficariam como meros espectadores da dor alheia. Sentia um ar demoníaco na sala e rejeitei tal proposta. Minha mãe encantada olhava para a lista como se fosse sua única forma de sobrevivência. Eu, descrente e revoltada, a impeli para o quarto antes de por seu nome naquele papel. Conversei como era uma atitude egoísta e trapaceira de por o nome numa lista que impediria milhares de pessoas honestas que chegaram no local antes de nós de sobrevivermos, mas ela estava cega... O medo e o egoismo formam teias que aprisionam o tato humano com o próximo.

Então chegou meu amado, tínhamos poucos dias de namoro, e já estávamos sendo testados na nossa maior ferida: companheirismo. Com olhar preocupado, notou novamente que uma das nossas cadelas estava sendo como expulsa da nossa casa pelos tios, eu também havia notado alguns olhares tortos contra minha mais nova.Queriam envenená-la para não a levar ao abrigo. Como ousam meras visitas querer tirar um pouco da beleza que tenho de todos os dias? Ter um dos mais fiéis e verdadeiros animais ao meu lado?

Tomei partido e disse que no meu carro ela habitaria até chegarmos ao abrigo. Eu sentia o ar úmido, amor dizia que as barricadas tinham sido mal posicionadas estrategicamente para apenas quem tivesse jatinhos pudessem chegar ao lugar alto e se proteger da inundação. Meu coração apertava-se mais uma vez. Eu não podia salvar tudo nem todos e isso me fazia sentir cada vez mais encurralada.

Assim que os parentes saíram de casa, empurrei o amor e minha mãe com as cadelas pra dentro do carro, e alertei-o para em hipótese alguma permitir que minha mãe saísse do quarto. Sabia que a intenção era salvar o máximo da casa, mas não havia mais tempo, embora a tv dissesse que a água demoraria dois dias para chegar onde morávamos. Minha intuição gritava, sentia minha pele virar escamas, e pressentia o grito dos aflitos se afogando. Densas trevas.

Corri em direção ao meu quarto para tentar salvar o máximo de mantimentos.Escolhia entre as roupas as que mais seriam neutras e necessárias. Suavemente comecei a ouvir uma voz dentro de mim gemendo que não daria tempo, eu não podia me demorar, mas tentei abafá-la dentro de mim. E cada vez que a voz ecoava eu sentia arrepios doloridos e frios, como garras de gelo que me dilaceravam. Corri em direção ao quarto dando adeus à casa que passara poucos anos da minha vida, e sabia que os próximos não seriam tão fáceis se eu continuasse viva. Me deparei com vários reporteres dentro da minha casa e minha mãe encantada com eles, esboçando palavras bonitas. Ela queria aparecer, queria ficar, mesmo que isso lhe custasse a vida.

Entendi o quão prejudicial seria passar meio segundo naquela sala e a puxei com força pelo braço sem dar explicações. Corri em direção ao carro e a coloquei no banco de trás junto com o namorado. Implorei para que ele não a permitisse sair do carro e entrei no banco da frente, nervosa, ainda operante e disposta a lutar contra as águas. A maré estava vindo. As águas vieram questionar tamanho desgosto que os humanos as deram. Entretanto seres humanos não gostam de ser questionados, pagariam com a vida, injusta e dura, como nós mesmos somos.

Olá pessoal, essa é uma das estórias que tenho pensado em postar aqui. Caso tenham gostado, ou não, não deixem de opinar e dizer o que acharam dessa estória pré apocalíptica que escrevi!
Até breve

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