Do tamanho do oceano



Um dia tão cansativo cheguei em casa e só pensava em tirar os malditos sapatos.

Pra que inventaram sapatos que só são estéticos e nada funcionais? Que tipo de mulher gosta desse lixo?

Bem, caminhei descalça até o quarto, onde peguei pregadeiras e prendi os fios ruivos que davam tanto trabalho para cuidar. Fui em direção à suite e usei uma invenção maravilhosa: um demaquilante para banho.

Como sou apaixonada por praticidade! Enquanto fazia deslizar as roupas em direção ao chão e abria o chuveiro, olhava em volta e agradecia por ter conquistado tantas coisa. Em tão pouco tempo realizei tantos anseios que se apertavam no fundo da alma, aquelas coisas que você tem medo de querer e de contar para alguém que quer sem que te chamem de fútil.

Pra mim não era boçalidade da minha parte, mas eu mantinha em segredo. Amava chegar em casa só para tirar todas aquelas cargas emocionais no banho. Fundamental me esvaziar de tanta coisa que carreguei o dia inteiro. Sem antes esquecer de ligar na minha playlist favorita para banho, tem músicas que não são indicadas para esse horário. Pelo menos sou muito crítica com isso.

Estava me aliviando, tirando um fardo enorme dos ombros. Sai do chuveiro e procurei o roupão, mas estava tão exausta que nem tinha pensado que passei direto do noivo e dos cães. Espero que entendam.

Entenderão.

Sai da suite mas a cama estava tão sedutora, resolvi me deitar um pouco antes de percorrer o apartamento dando oi para todos seus amáveis moradores. A noite estava maravilhosa, os céus estrelados como eu amo.
Pulei a cama e fui para a rede, como eu amo essa rede! O vai e vem e as estrelas me desconectam desse mundo louco e me dão uma satisfação enorme.

Conforme ia imaginando os desenhos que as constelações faziam meus olhos iam se anestesiando e pesando cada vez mais. Cada vez mais.

Grilos...

GRILOS? Como apareceram grilos no meu apartamento? E quem vai matá-los? Meu deus... AMOR
CADÊ...

AMOR?
Ué, onde estou? Não me lembro deste lugar, o que está acontecendo?
Um desespero extremo toma conta de mim e eu me vejo perdida num cenário desconhecido. Começo a sentir calafrios tão grandes que meu desejo é sentir o abraçar da morte e nunca mais ver a luz do dia. Perdi completamente a noção de tempo e espaço. Eu estava... simplesmente... numa sala extremamente escura e sem previsão de saída.

Não era bem uma sala, mas um cômodo circular, e barulhos de... ONDAS?

Vejo que a luz da lua está bem intensa invadindo uma janela enorme, mas tomo cuidado ao chegar perto pois a janela é baixa e sinto estar numa altura considerável. Me seguro na parede e ainda ouço o grilo...

Espero não encontrar esse maldito. Seguro na lateral da janela e vejo ondas enormes, o azul profundo do oceano reflete a intensidade do meu desespero. Como eu poderia aparecer num castelo no meio do mar?

No meio do nada. Sinto algo pular na minha mão...

GRILO!
Pulei para longe e bati com força a cabeça no chão. Com certeza não era um sonho, o que me desesperou mais ainda. A tontura e a fraqueza tomavam conta de mim como uma sombra que avança lentamente sobre a noite, cada vez mais escuro e perverso. Pelos céus entendo que o dia está nascendo, enquanto há escuridão eu não hesitava sair do tal castelo. Não sabia o que havia lá fora e talvez todos os meus piores pesadelos viessem a tona. Eu tinha certeza de que não estava preparada. Indícios de que o terror havia apenas começado.

O dia enfim nasceu e eu aproveitei para tentar sair daquele lugar, estava morta de fome pois nem havia sentido uma gota de água dançar na minha língua. Rodeava a sala redonda à procura de repostas ou de alguma prova de que alguém teria me levado para lá. Achei uma porta e tentei abrir, mas estava emperrada.

Pensei bem e tentei não me desesperar mais, então eu reuni todas as minhas forças e chutei como os policiais das séries que eu assistia. Nada. Comecei a caminhar de costas enquanto as lágrimas desciam e a vontade de sair gritando dali. Mas tinha um medo insuportável de que algo estivesse lá fora pronto para me punir.

Mal sabia eu que estava certa.

Quando reprimi esse medo e inspirei para soltar o grito, senti uma presença densa atrás de mim, que se apossou do meu corpo colocando um membro molhado e grudento de seu corpo por cima dos meus ombros, que cobria minha boca e chegava até ao outro lado do meu corpo, como um abraço de possessão.

Fechei os olhos e lágrimas quentes caiam.

Enfraqueci de vez e me deixei ser possuída por aquela entidade estranha. Enquanto caí tive uma visão terrível de um ser meio homem meio polvo. Mas o pior é que eu reconheci aquele rosto totalmente deformado, como se tivesse perdido partes do corpo e recolocado partes do tal animal, seu olhar era de fome e vingança. De posse, como uma criança olha para seu único brinquedo, e sabe que o brinquedo fará tudo o que ele quiser, pois é apenas um pedaço de plástico inanimado, que exerce as funções que bem quer. Era meu noivo.

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